NOVAS ORGANIZAÇÕES E CULTURAL

NOVAS ORGANIZAÇÕES e CULTURA

Por Flavia Vivacqua

 

 

 

A Força não provem da capacidade física e sim de uma vontade indomável (…),

o Amor é a força mais sutil e humilde do mundo, a força mais poderosa!

Mahatma Gandhi 

A liberdade, existe em momentos delicados e se localiza bem próximo da fronteira.

As escolhas, em diferentes escalas, são como uma onda acumulada.

Na indústria, vende-se mais porque é de plástico, ou é de plástico porque vende mais? Os consumidores são indivíduos não-organizados que tomam, em suas escolhas de compra, a escala da multidão. Nós, ainda que sob massificada tentativa de determinação de nossos desejos por parte da indústria e da publicidade; de nossa possível imaturidade diante da necessidade afetiva de pertencimento; ainda assim, temos o privilégio de fazer escolhas e tudo parece necessitar ser sacrificado pela atenção consciente.

Por serem diferentes dos espetáculos teatrais, do cinema e da música, as artes visuais e, dentro deste campo, as artes experimentais e as artes públicas, tornam-se, por suas qualidades relacionais, “ponta de lança” do sistema cultural, das diretrizes e ações públicas de desenvolvimento social.  Também sob essa ótica, escolhas que estariam em uma escala do individuo, ou do grupo e seu micro-cotidiano, tornam-se escolhas coletivas, escolhas sociais.

Presenciamos a todo instante o perigo eminente da forma amornada, das propostas inseridas no sistema instituído sem posicionamentos críticos e tensionadores, na busca por estar em relação de manutenção de mão dupla com ele… Como reconhecer o ponto em que simplesmente reproduzimos o que não nos serve mais? Como pode ser uma relação fronteiriça de negociação diferenciada com as instâncias de poder? E como podem os que trabalham em posições de poder estabelecer tomadas de decisão, governança e empoderamento de forma diferenciada? Quais os valores e princípios fundamentais? Quais as diretrizes e indicadores que nos guiam? Qual o sentido que estamos construindo?

Nas práticas e negociação pessoal, o que vem atrás, recebe esse mesmo ponto, ou padrão, que se torna dado de referência ou parâmetro pré-estabelecido. Faz-se necessário perder a ingenuidade, ou qualquer tipo de mitificação e tabu nas negociações, sobretudo nos acordos jurídicos e econômicos.

 

No entrelaçamento das práticas artísticas e culturais da sociedade,  na lógica das redes, pelas novas organizações e economia criativa, encontramos alguns exemplos de práticas (cultura livre; democratização do conhecimento e livre circulação; intervenções e ações diretas; happenings e arte relacional; manifestações públicas e midiáticas; práticas pacifistas e desobediência civil não violenta; entre outros), que pressionam transformações para outras tomadas de decisões das instâncias de poder, ao imprimir novos valores e ética no trabalho e suas relações (como nas manifestações frente as situações jurídicas e econômicas das atuais leis de isenção fiscal, direito autoral e propriedade intelectual). Dessa forma, todas as escolhas no âmbito do trabalho – desde a escala individual – serão sempre, para o sistema, escolhas coletivas.

Vivemos em uma sociedade pautada nos processos de Troca e Partilha, buscando aprender práticas de Compartilhar e Colaborar – detalhes do COMO – geradoras de novo processo cultural para essa sociedade.

Já é possível perceber que se apropriar singularmente, ou grupalmente, dos meios de produção e difusão, importante prática dos artistas e agrupamentos independentes, dinamizados pelo uso das atuais tecnologias, não basta para o fortalecimento das novas organizações em rede como possibilidade de reorganização social. Pois, ou são efêmeras e pontuais, ou são facilmente absorvidas pelo sistema vigente, necessitado de novidades geracionais para se manter. Desse modo, as dinâmicas coletivas que imprimem novas éticas e valores; o ambiente compartilhado e estruturado de maneira a gerar menos disperdício e ampliação das possibilidades de relações, como lentes que nos amplificam a visão; e, principalmente, a continuidade dos processos, são eixos fundantes na transição para uma sociedade colaborativa.

Porém, são justamente as novas organizações em rede, capazes de experimentar –  criando e praticando conceitos diferenciados como autogestão – compartilhar e colaborar em escala macro (ex.: www.indymedia.org – 1999 e www.wikipedia.org – 2001) ou comunitária (ex.: http://gen.ecovillage.org – 1993), ou ainda coletiva (ex.: www.corocoletivo.org – 2003), que estabelecem novos meios produtivos, circuitos e conhecimento livre. O fundamental na construção cultural é que essas organizações são exemplos para novos procedimentos e valores nas tomadas de decisões, governança, empoderamento, comunicação e resoluções de conflitos, sendo propositivos em soluções e sobresaindo-se ao status quo claramente insuficiente e ineficiente hoje, porque destrutivo e com alto nível de desperdício.

Na organização comunitária, se o foco do investimento de energía produtiva (produtor + processo + produção) e das outras partes da econômia, for direcionada em sua maioria para o interior da rede colaborativa, de forma a nutri-la mais, do que o ponto de maior externalidade, a boa tendência é o fortalecimento e a possibilidade da comunidade estar em manutenção continuada e crescente de sua funcionalidade sistémica; o contrario, tende a gerar desperdício sistemico. Para tanto, se torna necessário atuar no cinturão da resistência e para além dele, saindo da zona de conforto e dos padrões estabelecidos sobre códigos e necessidades que já não nos pertencem, para que haja construção efetiva de outro modo de existir.

 

Nesse momento, o redesenho organizacional, economico e relacional, integrados… talvez seja o caminho politico-cultural mais necessario, de estratégia e tática possível, para uma comunidade em rede fundada na lógica da autogestão, do compartilhamento, da colaboração, da dinamização da economia local, do fortalecimento das novas estruturas organizacionais e de uma nova ecologia do sistema e da cultura.

 

Política? São as escolhas coletivas de cada um, que estabelecem acordos, fronteiras, modos de viver, de relacionar-se e de construir o conhecimento comum. É o desafio e responsabilidade de todos que escolhem viver em sociedade e, dessa forma, necessita ser encarada como construção cotidiana, inteligente, criativa, saudável e prazerosa, porque justa.

***

*Curiosamente, recebi 3 convites na mesma semana, para abordar o mesmo tema eixo: “Política Cultural”. O texto que vocês podem ler no anexo em PDF, faz parte do processo oportuno, em lugares e com publicos distintos, de pesquisar e compartilhar os pensamentos durante o Fora do Eixo (DF), Prospecta (RN) e Revista Tatui (PE).

“NOVAS ORGANIZAÇÕES e CULTURA” originalmente foi publicado na Revista Tatuí 6 e também é possivel encontra-lo no blog Cultura e Mercado. 
 
Aproveito o anuncio do Canal Contemporanio para quem deseja adquirir a Revista Tatuí 6
http://www.canalcontemporaneo.art.br/livraria/archives/002310.html

Anúncios

Um pensamento sobre “NOVAS ORGANIZAÇÕES E CULTURAL

  1. Pingback: Novas organizações e cultura «

O que está sentindo ?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s